sexta-feira, 7 de julho de 2017

Tudo o que pertence aprisiona...

As pessoas anseiam por ter sua liberdade roubada. É algo que não entendem, que possuem e não sabem o que fazer com ela. É o tesouro da leveza de espírito e da consciência que é entregue ao outro sem arrependimentos, por vontade própria.
Porém a necessidade de controle remanesce e para fugir da loucura que o descontrole trás, fazemos uso da liberdade alheia para nos trazer equilíbrio. Podamos o que (ou quem) achamos desnecessário, acrescentamos o que achamos essencial. Moldamos o outro à nossas próprias vontades como se não dispuséssemos de um corpo próprio e inteiro 24h por dia para tomar conta.
Na verdade não ansiamos pelo roubo, ansiamos pela troca.
Parece tão mais amplo e mágico poder controlar o que o outro faz que acabamos por nos ocupar cada vez mais do outro e esquecer cada vez mais de nós mesmos. Afinal, o outro precisa atender às nossas idealizações para ser amado.
Nos preocupamos tanto em controlar o outro e nos deixar controlar que esquecemos de que tudo o que pertence aprisiona.
É a conveniência que encobre a posse.
O possuir traz sensação de falso poder, falsa autoafirmação, pois nada é teu de verdade.
A única coisa que de fato lhe pertence é consciência do que é o mundo e quem somos nele.
E quem somos afinal, se não paramos para nos olharmos no espelho e enxergar quem realmente somos? Se não dedicamos tempo para nos transformarmos em quem realmente queremos? Se não nos permitimos controlar nossa própria liberdade com a finalidade de conhecer (e expandir) nossos limites?
Como amar a si mesmo se sequer sabemos quem somos?
Mas preferimos deixar isso como tarefa do outro, que também foge da própria percepção na ilusória procura de si mesmo num corpo alheio.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Coragem, Força e Completude...

Era uma vez um rapaz e uma moça que tiveram seus caminhos lado a lado por um tempo de suas vidas, mas que foram se distanciando com o passar dos dias.
Ele seguiu seu caminho, deixou ela para trás. Já ela jamais o esqueceu, por mais longe que os caminhos estivessem, ela sentia como se seus corações estivessem lado a lado.
Os anos passaram.
Um belo dia ela, que por tanto tempo tinha sido feliz com o fantasma da presença dele, acordou inquieta. E cansada de alimentar seu amor com esperança, pensamentos e fantasias, marcou um encontro com ele.
O Relógio corria depressa naquele dia, junto com a ansiedade e um outro sentimento ainda incompreendido dentro dela.
Depois de tanto tempo eles se veriam de novo.
Seria tudo como nos velhos tempos? Seria tudo mais frio? A intimidade que sempre se fez tão intensa ainda se faria presente? Haveria mais silencio do que diálogos?
Ela respirou fundo, o coração batia nervoso.
Ele chegou, sorriu e entrou.
Não houve silencio, ou desconforto. Praticamente tudo o que sempre existiu ainda ali permanecia. Menos o essencial, mas isso era apenas um detalhe naquele momento.
O dia amanheceu.
Ela despertou e junto dela uma certa inquietação.
À tarde ele resolveu ir embora. Ela então sentiu o que esteve presente desde o início, sutil demais para se apresentar com força.
O fim.
Eles se despediram, ela olhou ele nos olhos e pediu mais um beijo. Lá no fundo agora ela entendia, aquele seria o último.
Ela foi para o quarto e chorou. Chorou como há muito tempo não chorava. Não por ele, mas pela sensação de vazio que havia dentro dela. Era um vazio tão grande, como se existisse literalmente um buraco do tamanho de uma bola de basquete no peito dela.
Ela não entendia o que significava aquela sensação, ela se culpava por ter visto ele, pois até então as coisas estavam bem.
No outro dia quando acordou o vazio permanecia ali.
“Como lidar com isso? ”, ela se perguntava, ela simplesmente não sabia o que fazer com tanto vazio dentro dela. Era angustiante demais se sentir assim. Não havia vontade de nada dentro dela.
Ela já não queria trabalhar, sair de casa, ver pessoas, interagir com o mundo. O vazio a tomou por inteiro.
Primeiro ela decidiu apenas aceitar e conviver com aquilo, mas lhe era ruim demais.
Então ela resolveu preencher aquele vazio de alguma forma.
Ela procurou os amigos, o carinho deles, o sorriso, os brindes. Não adiantou, pelo contrário, em certos momentos ela sentia até um certo desconforto em impor a sí mesma uma interação social que lá no fundo ela não queria.
Ela decidiu, por fim, preencher o vazio com ela mesma. Mesmo sem vontade ela voltou a fazer as coisas que ela gostava. Estudar música, ler em cafés, ir ao cinema sozinha, praticar esportes. Ela se ocupou tanto de si mesma que mal sobrava tempo para os amigos. Ela se perdoou por isso e resolveu não se obrigar a mais nada. Ela só saia quando ela realmente queria ver um deles. E os via um de cada vez, aproveitando ao máximo a cia de quem ela gostava.
E o buraco aos poucos foi diminuindo até que um dia ela acordou e conseguiu, finalmente, respirar fundo de novo. Se sentindo inteira, completa e em paz.
E ao respirar em paz ela entendeu tudo de forma clara e se sentiu realmente feliz por ter feito aquele convite há meses atrás.
Quando a gente ama alguém e cultiva sentimentos por esse alguém, esses sentimentos vão crescendo e ocupam espaços dentro de nós que nem sequer imaginamos. E é quando dizemos adeus definitivamente que descobrimos, é quando o outro vai embora que percebemos tamanho do vazio que ele deixou. Por isso que é tão difícil dizer adeus. Nós temos medo do vazio que ficará dentro do peito e de não sabermos qual a melhor forma de preenche-lo.

É preciso coragem para deixar ir.
É preciso força para seguir em frente.
É preciso completude, pois só quando se é inteiro se é feliz de verdade.

A felicidade anda em par...

A primeira vez que te vi
Tua beleza me deixou boba
Tamanha alegria que senti
Te dei meus olhos pra tomares conta.

Te ver foi encanto
Foi canto
Melodia em piano

Em meus olhos és fantasia
Duas luas tocando o mar
Na minha boca poesia
Embriagada de luar.

Cada traço,
Risco de compasso
Que me fazem suspirar

Quisera eu poder te admirar
de aurora a aurora
Enamorar a memória
Para te poder sonhar

És distração
Meu devaneio a cada entardecer
Sentimento que faz fugir a razão
Porque lembrar é não ver.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Me amar mais? Como assim?...


Existem muitas pessoas que, assim como eu, já passaram (ou ainda passam) por problemas de valorização em seus relacionamentos.
Aquele sofrimento de se doar imensamente e receber quase nada em troca.
Eu sempre me encaixei fácil nesse perfil.
Eu fazia de tudo para agradar quem estava comigo. Desmarcava compromissos para encaixar um convite de última hora do crush na minha agenda. Deixava de comprar algo para mim, para dar AQUELE presente. Assistia sempre os filmes e séries que agradavam o outro, porque geralmente o meu gosto não era “tão cool”. Ouvia muito e falava pouco. Não cobrava nada além de uma cia nas horas boas, mesmo sabendo que havia dias ruins em que eu realmente precisava de alguém. Aceitava atitudes que me magoavam porque a felicidade do outro era mais importante que a minha.
Eu acreditava tolamente que o amor do outro por mim um dia cresceria e a pessoa me valorizaria se eu fosse boa o suficiente para isso, me culpando quando isso não acontecia. E isso sempre acontecia.
E em todos os términos eu ouvia sempre a mesma frase dos meus amigos: “Tu precisa se amar mais e se valorizar”. Ok, eu acreditava nisso, mas nunca entendia como que isso funcionava.
Realmente, anos atrás eu me olhava no espelho e não me sentia bonita, ou não conseguia ficar sozinha em casa. Mas hoje em dia eu me acho bonita, eu adoro minha cia... Então eu me amo, certo? Por que as coisas continuam iguais? Eu preciso me amar mais? Como assim?
Foi então que um dia eu li uma frase tão elucidativa que foi como um soco no estomago. Foi esclarecedor, foi. Mas doeu. Muito.
A frase dizia assim: “How you love yourself is how you teach others to love you. ” (Como você se ama é como você ensina os outros a amar você.)
Então eu me dei conta de que sempre que eu conhecia alguém eu me anulava totalmente, ou seja, a forma como eu “me amava” era essa. Eu me largava de mão completamente, não estava nem aí. Eu não ligava se eu me magoava com atitudes alheias, eu não ligava para os meus gostos, vontades, ou necessidades e sempre colocava o outro em primeiro lugar. E estas eram sempre minhas queixas quanto ao comportamento dos outros comigo:
“Fulana nunca faz nada pra me agradar. ”
“Fulano está sempre fazendo algo que me magoa e nem se importa. ”
“Cicrana sempre me trata com indiferença. ”
“Cicrano nunca valorizou quem eu sou de verdade. ”
Eu percebi que se o jeito que eu me amo é como eu ensino os outros a me amar, realmente, do jeito que as coisas estavam eu nunca seria feliz com ninguém. Eu não seria feliz nem sozinha, para início de conversa.
Nesse momento eu parei tudo.
Dei um reset em todos os relacionamentos e pseudo-relacionamentos que já não estavam mais funcionando (amores e amizades) e decidi recomeçar "do zero".
Passei a me questionar e atender às respostas desses questionamentos:
O que EU gosto de ouvir, assistir e ler?
O que EU gosto de vestir?
O que EU gostaria de ganhar de natal?
Quais os lugares que EU aprecio ir e como EU gostaria de me portar nestes lugares?
Quais as coisas que EU gosto de fazer?
Quais os amigos que me respeitam, apoiam e me amam como eu sou?
Quais minhas metas para 2017?
Durante esse processo (que levou meses) eu me recriei, reformulei e valorizei de uma forma absurda. Eu me identifiquei com coisas e me conectei com pessoas de uma forma que jamais imaginaria. Eu me permiti isso. E isso não só trouxe alegria e paz para a minha vida, como também me fez mais forte.
Hoje em dia eu não aceito pessoas egoístas e treteiras no meu círculo de amizades e relacionamento nenhum vai pra frente comigo se não há respeito e reciprocidade.
E a cada dia que passa eu me escuto mais, me conheço um pouco melhor e me dou uma atenção muito maior do que a que eu sempre quis que os outros dispensassem a mim.
A vida de alguém que se “se ama”, como meus amigos aconselhavam, é muito mais solitária e calma do que se imagina, porque alguém legal, que te ame, respeite e valorize não se encontra a cada esquina (as vezes, em festas principalmente, me sinto como se eu estivesse cercada de gente babaca). Mas não é uma vida ruim não, muito pelo contrário, nunca fui tão feliz na minha vida como sou hoje.
No final o X da questão não é se você “se ama”, mas sim de qual maneira você se ama.
Se pergunte vez ou outra qual a importância que você dá para você mesma, do que você gosta, o que te faz feliz. Se permita conhecer quem você é e também construir quem você é de uma forma que lhe dê orgulho ao se olhar no espelho todos os dias. 
Você vai ver que as pessoas legais que entrarem na sua vida vão te olhar com outros olhos e vão te tratar muito melhor; e as que não forem legais não vão durar muito. Porque quando você se gosta, você não aceita e nem aguenta ter gente babaca por perto.

No mais seja bom, a gente atrai o que transmite. (:

domingo, 11 de dezembro de 2016

Onde não puderes ser de boas, não te demores...

Quando eu crio carinho por alguém não importa o tempo que passe, o carinho fica. Mesmo que esse alguém vá embora e que a amizade não esteja mais presente.
Muitas vezes minha memória brinca de trazer os bons momentos à tona. Quando uma música toca, quando um perfume corta o ar, ou simplesmente porque na vitrine tem uma roupa que "é a cara de fulana". E junto dessas memórias vem a saudade.
Sempre que algo me lembra alguém que eu gosto eu compro presente, eu mando mensagem, eu mando foto, eu procuro mesmo. O velho amigo, o novo amigo, o vizinho, o ex namorado, o ex colega de apartamento... Porque acho gostoso saber que tu é lembrado com carinho por alguém, mesmo quando faz anos que os caminhos não se cruzam mais. E fico realmente feliz quando alguém fala que viu certa coisa e lembrou de mim, ou que sente saudade.
Eu entendo que é saudade das coisas boas, de algum momento bom, ou simplesmente do som que a risada do outro faz. Saudade, e não vontade reviver toda aquela amizade, ou rever a pessoa em sí.
Saudade da amizade que talvez existiu. Amizade essa que talvez não exista mais, mas que deixou sua marca o suficiente para ainda mesmo depois de um tempo ser lembrada com carinho.
Mas nem todos entendem isso. Nem todos vivem a leveza de deixar o ego no bolso, carregar consigo o que foi bom e ser gentil com quem lhe é gentil.
Você manda algo doce e sincero e o outro não vê isso como um gesto de carinho no qual o outro lembrou com alegria dele, ele vê como um gesto "fraco" e faz disso uma oportunidade para ser rude, indiferente e às vezes até cruel com quem estava ali de coração leve.
Com o tempo a gente aprende a filtrar as pessoas que devem permanecer na vida da gente e as que jamais deveriam ter entrado. Aprende a ver de longe quem está ali porque gosta de ti, e quem está ali porque tu oferece naquele momento o que ele precisa.
Mas às vezes você se engana e só percebe que o outro não é tão de boas quando é magoado por ele.
Tá tudo bem.
Nem todo mundo pensa como você.
Nem todo mundo vai gostar de você como você gosta dos outros.
É normal.
Acontece.
Respira fundo.
Solta o ar devagar.
E deixa essa pessoa no passado.
Quando os bons momentos vierem ao pensamento outra vez você diz a eles "realmente, esse dia foi ótimo" e trata essa memória como se trata um sonho bom. Guarda com carinho, guarda pra ti.
Não procura quem não está disposto a te tratar bem, porque estar perto de quem te faz mal é desamor.
E por mais que o outro não seja leve como você, não vale a pena guardar tristezas e mágoas no peito.
Pesos desnecessários causam dores desnecessárias e um coração leve é um coração feliz.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O que não lhe contaram sobre deixar de ser bonzinho...

Todo mundo já ouviu aquela máxima de "bonzinho só se fode", mas quase ninguém te explica o quão difícil também será "deixar" de ser bonzinho. Não, não estou falando de virar um cuzão que pisa em todo mundo por vingancinha. Estou falando deixar de ser "troxa" mesmo. E quando falo troxa me refiro a alguém que coloca os interesses do outro acima dos seus, sem amor próprio.
Eu sempre cresci tendo pouco em questão emocional, pouco amor, pouco carinho, pouca importância. E na minha cabeça isso acontecia porque eu não era boa o suficiente. Então eu sempre me esforcei para ser a pessoa mais presente, querida e amável com as pessoas que eu gostava, na esperança de que elas me dessem mais do que aquelas migalhas que eu recebia. Eu dava muito e exigia pouco, porque tinha medo de exigir demais e perder a pessoa. 
Quer dizer, eu achava que exigia pouco.
Faz pouco tempo eu entendi que por mais que você não exija nada do outro, o fato de você se doar muito pressiona a outra pessoa a se doar mais também e quando ela não tem condições de responder a altura, ela sente desconforto, vontade de fugir daquela situação, se distanciar.
Quando isso não acontece, ela se acostuma com essa situação favorável de dar pouco e receber muito, assim como você se acostuma a dar muito e receber pouco.
Mas com o tempo, a terapia e todas as experiências que você vai vivenciando, um dia você acorda e percebe que você não é feliz assim. Que você precisa de mais. Você simplesmente cansa de ser aquela pessoa que sempre procura, puxa assunto, cansa de ser aquela que diz que sente saudade, que quer agradar sempre sem ser agradada de volta. E você se revolta, consigo mesma por estar naquela situação, por aceitado essa situação por tanto tempo e é aí que a mudança acontece. 
De dentro pra fora.
Você acorda e ao invés de correr para o celular e mandar "Bom dia" pra alguém, você simplesmente quer se alongar beeeem devagar, abrir a janela, colocar uma música suave enquanto você escolhe sua roupa pra trabalhar.
Você chega no trabalho e fica tão concentrada nele e nas suas coisas que o tempo passa mais rápido e quando você vê já é quase noite e você não enviou o costumeiro bom dia. Mas agora já é de tarde e você está atrasada para sua aula (de Zumba, pole dance, jogo de futebol) e você acaba esquecendo.
De repente você tem tanto para administrar que as coisas ficam mais complicadas, as outras pessoas ficam mais distantes e você começa então a selecionar melhor as pessoas que você quer por perto. As pessoas que você sempre teve que mendigar atenção são as primeiras que você se afasta. Porque você vive para você agora, não para agradar o outro e onde não há troca não vale a pena se demorar.
Mas quem é deixado de lado não entende isso. Não aceita. E ainda pensa estar com a razão:
 "Ora, mas eu sempre fui assim com ela, já fui até pior inclusive, e ela sempre aceitou. Por que é que agora se revoltou desse jeito. Esta louca."
"Não vou mover um dedo, uma hora ela se arrepende e volta. Ela sempre volta."
"Ela sempre me procurou, que absurdo agora ela não vir mais falar comigo todos os dias! Ela não tem consideração mesmo!"
"Como assim eu convidei ela e ela não pode? Isso nunca aconteceu antes, ela estava sempre disponível. Ela não se importa comigo.”
"Se ela não gostou do jeito que falei com ela e quer se afastar, problema é dela. Nunca reclamou antes. Sou assim e não vou mudar."
"Como assim ela não entende que às vezes eu não estou afim de responder e só visualizo?”
E de repente tu começa a virar a pessoa egoísta, a egocêntrica, a insensível e sem responsabilidade emocional, mas na verdade você só está se colocando em primeiro lugar depois de muito anos ocupado o segundo. E as pessoas não conseguem enxergar que você mudou e que você, assim como elas, tem suas próprias prioridades e não pode, ou não quer estar presente o tempo todo.
A gente muda.
E espera que um dia os outros tenham a empatia pra reconhecer que agora você é protagonista de sua própria vida, e assim como eles, você precisa de carinho, amizade, respeito e um tempo pra si.
Pois quando você deixa de "ser bonzinho" na realidade você não está sendo ruim, você só está sendo bom com você em primeiro lugar. Você apenas compreendeu que o seu amor próprio vale muito mais do que o julgamento de quem nunca sequer te deu amor. 
Não, não é fácil mudar, mas depois que você pega o ritmo tudo fica mais leve porque só permanece na sua vida quem realmente te ama e faz bem.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Se não é 100% consentido, é estupro sim...

A história de hoje não é bonita, porém é verídica. E o tempo que levou para o lápis riscar o papel, foi o tempo que a ferida levou para ser decifrada. Sim, todos temos feridas tão bem escondidas que por vezes elas morrem conosco, dores latentes que são sentidas e nunca compreendidas.
Eu tinha 15 anos quando o conheci. Estava visitando primas no interior. Sabe aqueles encontros onde meia dúzia de garotinhas se juntam com meia dúzia de garotinhos, também com seus 15 anos, pra se reunir na casa de algum deles, cujo os pais foram viajar, colocar uma música e encher a cara com algum destilado barato e refrigerante. Ele era da mesma turminha. Um garoto bom. Um garoto "de família".
Dez anos se passaram.
Ele saiu do interior. Fez faculdade. Mudou de estado. Mas naquele ano estava finalizando seu mestrado e por isso voltou para o sul e estava morando em Porto Alegre.
Eu estava de bobeira nesses aplicativos quando vi ele. Deu o famoso "match", começamos a conversar. Dez anos de assunto não se põe em dia em pouco tempo não é mesmo?! Então marcamos um encontro num bar.
A cerveja era artesanal e a conversa era boa. O tempo passou voando. Ele me convidou para conhecer o apartamento dele. Lá haviam mais cervejas. Quando me dei conta de que eu estava alcoolizada demais para decisões sabias falei que queria ir embora.
Chamei o táxi. Ele me ajudou a entrar no táxi. Ele entrou no táxi também, assim sem necessidade de convite, no auge da minha inocência alcólica pensei "que querido, vai até em casa comigo para ter certeza de que chegarei bem".
Cheguei em casa e ele entrou também. Não gostei muito, mas não estava em condições de nada e me deitei para dormir. E todas as coisas que vieram depois são apenas flashs. Se apagados pelo trauma, pelo álcool, ou pelos anos eu não sei dizer.
Só lembro de acordar com ele em cima de mim, incomodada com a situação lhe disse que não queria. Então eu apaguei. Acordei com ele em cima de mim novamente. Disse não mais uma vez. Apaguei mais uma vez. E a situação continuou a se repetir. Lá pelas tantas com o pouco de energia que ainda havia em mim reclamei mais, disse que doía, que eu estava mal, que precisava dormir. Justificava, implorava para parar uma situação onde apenas um "não" já deveria ser suficiente. Depois do que me pareceu horas eu "Venci". Ele levantou e foi embora.
No outro dia acordei me sentindo muito mal. "Foi só mais um sexo ruim" repeti para mim mesma. "Não foi nada demais". "Eu não devia ter bebido tanto." Ainda sim, a vontade de nunca mais falar com ele persistia ali, por que será?
Então ao longo do dia comecei a sentir um cheiro horrível em mim. Não era de suor, não era de falta de banho, mas era um cheio de podre, insuportável. Eu tomava banho, me secava e o cheiro permanecia ali. Fui ao médico, fiz todos os exames possíveis e deram negativo.
"Doutora, eu devo estar com alguma doença, não é possível alguém cheirar assim"
"Ingrid, não há cheiro algum em ti."
“O cheiro” melhorou em algumas semanas, então resolvi sair com uma menina, o papo ela gostoso, ela era linda e querida, tinha me levado um bichinho de pelúcia de presente. Quando fomos dar nosso primeiro beijo "Plaw", o cheiro voltou. Só que dessa vez o cheiro estava nela.  Era como se a aura dela tivesse um cheiro extremamente desagradável, insuportável, me dava ânsia de vômito. Não consegui vê-la mais.
Sai com mais duas pessoas e o ocorrido se repetiu.
Levei isso para minha psicóloga na época e ela me disse "Ingrid, isso é alucinação. Isso é sério. Se isso voltar a acontecer teremos que fazer algo a respeito."
Sai de lá chorando, muito mal, pensando que nunca mais ia conseguir me envolver com ninguém novamente e ao mesmo tempo decidida a nunca mais tocar no assunto.
Três meses se passaram até que resolvi criar coragem para ficar com alguém de novo. Uma menina. Ela não tinha "o cheiro". Fiquei feliz, pensei “não estou mais louca”. Segui a vida, namorei uma menina, fiquei por um tempo com outras. Até que no inicio desse ano resolvi sair com um cara alto e particularmente bonito que eu conhecia há alguns anos.
Adivinhem, no primeiro beijo, “plaw”, o cheiro de novo. Começou a me dar um nervoso. Um enjoo. Eu só queria ir embora de onde eu estava. “Preciso dar janta pro meu cachorro” eu disse, peguei minhas coisas e chamei um taxi.
Fiquei atordoada com aquilo, mas tentei esquecer.
Quatro meses depois fiquei com outro cara. Tão querido, tão meigo, tão legal. "Agora vai", pensei.
Ele foi pra minha casa, dormiu lá e pela manhã me acordou todo carinhoso e pensei “porque não?!” De repente uma crise começou a tomar conta de mim. Eu só conseguia pensar “meu Deus tem um homem com duas vezes o meu tamanho em cima de mim.” Ele estava vestido, apenas sem camisa. Mas já era o suficiente. O pânico tomou conta de mim de tal forma que comecei a chorar, sem controle nenhum. Sem entender o motivo. Sem entender o que eu estava sentindo, ou o que estava acontecendo.
Só agora, depois de meses consigo entender que o que eu estava sentindo eram reflexos de um trauma de anos atrás e só de pensar nisso me vem mais lágrimas nos olhos. O “cheiro” que eu sentia era uma reação de histeria totalmente relacionada ao trauma. Algo “podre” que eu carregava dentro de mim, que “gritava” por uma compreensão e que eu não era capaz de enxergar.
Não foi hoje, não foi mês passado.
Aconteceu em 2014.
Dois anos e meio. Foram preciso dois anos para que eu me desse conta do que realmente tinha acontecido e das consequências que isso trouxe pra minha vida. E eu só me dei conta de tudo hoje através de uma conversa que tive com uma amiga que, ao me contar sobre sua experiência de abuso sexual, me fez entender que o que tinha acontecido comigo tinha sido um estupro, tinha sido um abusivo e com a terapia percebi o quão traumático isso tinha sido para mim e todas as sequelas isso me trouxe.
Escrevo hoje porque, assim como o relato da minha amiga me abriu os olhos e me fez enxergar o que tinha acontecido comigo, talvez o meu texto ajude outras meninas que possam ter passado pelo mesmo problema e estejam sofrendo as consequências disso sem sequer entender direito o seu próprio sofrimento.
Não é fácil criar coragem. Não é fácil se expor. Não é fácil, mas é necessário.
Somos criadas numa sociedade machista de tal forma que o abusivo é ok e deve ser aceito como normal, afinal, se eu não fui agredida fisicamente ou verbalmente, não houve nada de errado.
Estupro não é só quando o homem desconhecido te ataca na rua, rasga suas roupas, te espanca e violenta. Estupro é qualquer prática sexual não consensual. Pode acontecer na sua casa, com o seu marido, namorado, ficante, etc. Se não é 100% consentido, é estupro sim. Gera sofrimento. Gera sequelas. Gera trauma, sim.
Se não você não tem certeza se você quer algo e você fala “não”, você DEVE ser respeitada.
Se você está alcoolizada é ainda pior, pois o outro está tirando vantagem de alguém que se encontra indefeso, onde é obrigado a aceitar uma situação contra a sua vontade por incapacidade de reagir.
Acredito que o rapaz em questão, que causou tudo isso, até hoje não vê a atitude dele como algo abusivo e de cunho estuprador. Seguiu sua vida sem nem sequer levar esse dia como algo relevante para ele. Imagina, se eu até agora não conseguia relacionar uma coisa a outra, quanto mais ele, na condição de homem, onde o seus direitos e vontades sempre “valeram” mais que os meus. Mas se algum dia ele ler isso espero que tenha empatia o suficiente para entender os efeitos de uma insistência impensada.


Aos demais homens, apenas peço reflexão e respeito. Aprendam que um “não” já basta. E que sua “diversão” momentânea e irresponsável pode trazer consequências devastadoras na vida outra pessoa. Porque por mais que a nossa mente esconda, por mais que a bebida entre e a gente não lembre, o corpo lembra. 
O corpo lembra, o corpo sente e o trauma se faz presente; as vezes por anos, as vezes para sempre.